[...] Alves Barbosa, o primeiro a vencer a corrida por três vezes, nos anos 50, ainda se chateia só de pensar nos bolos de arroz que lhe davam para comer durante as etapas: «Pareciam areia».Fonte: SOL
Foi só mais tarde, quando participou na Volta a França, que percebeu a razão de ter de engolir aquela suposta fonte de energia. «Cheguei lá e deram-me uma espécie de arroz doce no forno que era maravilhoso. Chamava-se Gâteau de Riz e pensei: aqueles parolos traduziram à letra e dão-me bolo de arroz».
Vestidos de lã
Hoje, enquanto pedalam, os ciclistas alimentam-se de concentrados protéicos e barras e bebidas energéticas, uma dieta bem mais sofisticada. Joaquim Gomes, actual director da Volta e bicampeão da prova (1989 e 1993), ainda apanhou os hábitos antigos: «Comíamos ameixas secas, bananas, cubos de marmelada e açúcar e bebíamos água».
A escolha do ‘menu’ reflectia-se no peso que se perdia. «Hoje um atleta perde dois quilos por etapa, mas são facilmente repostos porque tem a ver com a hidratação. No passado, quem não tivesse boa capacidade de recuperação, podia acabar o dia com menos cinco ou seis quilos», explica Joaquim Gomes.
Mas não foi só a ementa que mudou. Se agora os equipamentos são uma mais-valia, nos anos 50 eram um obstáculo. A roupa era de lã e o corpo aquecia. «Até as bananas apodreciam nos bolsos», recorda Alves Barbosa, mais de meio século depois.
Também as bicicletas tornavam o ciclismo um desporto mais duro, como admite Joaquim Gomes: «Pesavam 10 quilos e agora sete ou seis e meio. E se antigamente havia dez mudanças, hoje são mais de vinte». O que facilita a pedalada e permite velocidades muito superiores.
As estradas que hoje são todas alcatroadas – a não ser «quando estão em obras», como graceja o actual director da Volta – eram outra dificuldade adicional que os ciclistas tinham de ultrapassar. Os troços de empedrado e de terra batida eram o prato do dia.
«A trepidação era tanta que ficávamos dormentes e sem reacção», diz Joaquim Gomes sobre os primeiros. Os segundos transportam os 81 anos Alves Barbosa a uma etapa entre Santiago do Cacém e Faro. «Sabia que ia haver muito pó e quis adiantar-me, mas quando já estava na frente tive um furo. O carro de apoio, com a pressa de me ajudar, ultrapassou-me e eu não o vi a tempo de travar e embati na traseira do carro».
O pior ainda estava para vir. O pai de Alves Barbosa seguia no veículo e saiu apressadamente para ajudar o filho. Com tanta poeira no ar, caiu numa ribanceira com a roda suplente na mão.
Joaquim Gomes, que durante a sua carreira veio a beneficiar das principais evoluções do ciclismo, admite que neste momento o trabalho do ciclista está mais facilitado: «De furar a mudar uma roda, se tudo correr bem, demora dez segundos».
Adeptos roubaram vitória
Mas nas suas primeiras pedaladas, nos anos 80, ainda não existiam rádios intercomunicadores e tinha de se contar mais vezes com a ajuda dos companheiros de equipa, ou para emprestarem uma roda ou a própria bicicleta. O problema é que não havia o espírito colectivo de hoje. Prevalecia a máxima: «Primeiro eliminam-se os adversários e depois os membros da equipa».
Quem também tirava o sono aos atletas eram os adeptos mais fervorosos. Alves Barbosa foi protagonista de um dos episódios mais caricatos da Volta, quando, na última etapa e de camisola amarela vestida, foi travado por adeptos do FC Porto. Retiraram-lhe uma roda da bicicleta, agrediram-no e impediram o ciclista do Sangalhos de ganhar a corrida. Com esta gravidade, foi caso único. A Volta está diferente.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Como era a Volta a Portugal há 60 anos
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